terça-feira, dezembro 14, 2004

Comentadores


Gosto de ver futebol ao vivo. Gosto do cheiro da relva, do barulho das multidões, e de me rir com os comentários dos diversos treinadores de bancada que me rodeiam (e eu obviamente sou um desses treinadores de bancada, e espero conseguir fazer rir alguns dos que ouvem os meus comentários sempre que perco a cabeça a ver um jogo). Sempre que essa opção me é possível, deixo o conforto da minha sala, e submeto-me aos elementos para poder estar num estádio, a ver futebol como eu gosto.

Ver futebol ao vivo tem outra grande vantagem. É que permite libertar-me da 'ditadura' da televisão. No estádio posso ver o jogo como eu quero, e não como um realizador mo quer mostrar. Posso ver a disposição de toda uma equipa no terreno, e posso ver as movimentações dos jogadores quando estão longe da zona de acção do momento (ou seja, longe da bola). Apanhei este vício a ver, durante anos, jogos a partir do 3ºAnel da antiga Luz, e hoje em dia faz-me confusão ver jogos sem ser de um plano mais elevado (acho aliás que os treinadores de futebol teriam grande vantagem se pudessem acompanhar um jogo com esta perspectiva do campo, em vez de estarem ao nível do terreno). Mas a maior vantagem de todas no futebol ao vivo é estar liberto dos comentadores de futebol.





Há uns anos, um jogo de futebol que passasse na televisão tinha apenas um 'relator', que nos ia informando os nomes dos jogadores portadores da bola, e soltava o eventual comentário. Depois estes 'relatores' começaram a ficar mais sofisticados, e emitir cada vez mais comentários sobre a sua apreciação ao jogo, e os desenvolvimentos 'técnico-tácticos' do mesmo (o xamã deste estilo de relatos não pode ser outro senão o grande Gabriel Alves). Isto acabou por descambar numa situação em que os originais relatores passaram a dar lições e conselhos tácticos, em directo para milhões de espectadores, aos verdadeiros treinadores que se sentam nos bancos das equipas. Claro que uma pessoa apenas passou a ser pouco para dar conta do recado, porque no meio de tanta consideração técnica e análise desportiva, não sobrava tempo para fazerem a sua função original de relatores do jogo. Eis que é introduzido o posto formal de 'comentador', para fazer equipa com o relator (o Gabriel Alves foi imediatamente promovido a este novo posto).



Como seria de esperar, os relatores não devem ter gostado desta perda de responsabilidades, e não aceitaram de bom grado esta redução de funções. Por isso, embora de forma mais discreta, continuaram a fazer as suas análises pessoais aos jogos que era suposto relatarem, agora com a vantagem de terem, dentro da própria cabine de comentários, a sua pequena audiência privada, constituida pelo comentador. O espectador de futebol na televisão passou então a poder ouvi-los a comentar ao desafio, cada um a puxar pelo outro, e a ver quem consegue fazer a análise mais profunda, e mostrar aos telespectadores quais os erros tácticos crassos que aprendizes como um Fabio Capello, ou um Alex Ferguson estão a cometer, erros esses que são facilmente detectados pelas nossas sumidades comentaristas.

Estas diatribes das equipas destacadas para acompanharem uma transmissão televisiva atingiram tal ponto que agora, quando vejo um jogo na televisão, por vezes tenho dificuldade em conseguir concentrar-me no jogo em si, dado que raramente se consegue ter uns segundos de descanso entre comentários. Os comentadores parecem ter uma predilecção particular pelo som das suas vozes, e mesmo quando tento não prestar atenção ao que dizem, por vezes o ruído de fundo é insuportável. Não vou dizer que faço como o Artur Jorge, que dizia gostar de ver jogos ao som de música clássica (embora comece a compreender porque razão ele o faz), mas por vezes já cheguei a desligar o som da televisão, para conseguir ver os jogos mais sossegado.



A minha crítica aos comentadores centra-se sobretudo no facto de eu achar que eles são capazes de, com os seus comentários, influenciar fortemente a opinião e a forma de ver um jogo. Diversas vezes eu já voltei de um estádio, e ao falar com pessoas que viram o jogo na televisão descubro que têm uma opinião sobre o mesmo que é completamente distinta da minha. Por vezes parece que não vimos o mesmo jogo (e não estou a falar de discussões com adeptos de equipas rivais, porque nesse caso as opiniões normalmente são sempre diametralmente opostas). Jogadores que eu considero que fizeram um bom jogo são acusados de terem sido os piores em campo, isto porque um dos hábitos dos comentadores é começarem a embirrar com um jogador, e passarem o resto do jogo a cascar nele, dando ênfase ao que de mal fazem, e convenientemente ignorando as partes positivas. O oposto também é verdade: jogadores que eu penso terem feito exibições banais são considerados pelos telespectadores do mesmo jogo como tendo feito exibições de encher o olho, isto porque os comentadores apaixonam-se por eles e passam os 90 minutos a cantar as suas virtudes, por exemplo apelidando de 'mágico' o mais pequeno toque que dão na bola.

Quero no entanto dizer que nesta história dos comentadores há excepções. Normalmente quando colocam treinadores de futebol 'a sério' nessas posições, eu respeito as considerações deles, porque sei que sabem muito mais sobre futebol do que eu alguma vez saberei na vida. Até podem não ter jeito para a função específica de comentador, mas pelo menos sabem do que estão a falar (com alguns eventuais acidentes de percurso, como foi o caso do espectáculo degradante do Manuel Fernandes a comentar o recente 'derby' entre a sua antiga equipa e o FC Porto). O exemplo do José Mourinho a comentar o Portugal x Espanha no último Europeu deveria ter enchido de vergonha muitos dos nossos comentadores, e fazê-los desistir da carreira. É a diferença entre alguém que sabe mesmo do que é que está a falar, e alguém que está a tentar fazer as pessoas acreditar que sabe. O mal da maioria dos comentadores é que não lhes reconheço méritos para poderem estar a criticar abertamente perante milhões de espectadores alguém que teve muito trabalho, e que teve que dar provas para lhe entregarem o banco de uma equipa de futebol. Na maioria dos casos estes comentadores nunca tiveram nenhuma ligação concreta ao futebol.



Comecei a gostar do Jose Antonio Camacho ainda antes dele vir para o Benfica. Durante o Mundial de 2002, estava em Barcelona, e assisti meio incrédulo a uma conferência de imprensa em que o Camacho se revoltou contra os jornalistas, e os acusou directamente de perceberem muito pouco sobre futebol a sério. Disse-lhes ele que a maior parte deles nunca tinha pisado um terreno de futebol, e que só estavam ali para 'joder' a selecção. Na altura comentei com amigos que um treinador daqueles era o que o Benfica precisava.

No fundo, o que é que eu quero dizer com este post (que já vai longo), em relação aos comentadores de futebol? Calem-se um bocado, e deixem-me ver a bola!

2 Comments:

At 12/14/2004 5:27 da tarde, Blogger koelhone said...

Concordo absolutamente.

A minha grande alegria, enquanto espectador de sofá, são aqueles lapsos de tempo em que ficamos sem som dos comentadores mas mantemos o som ambiente.

Depois, quando se volta à normalidade, lá vêm eles desculpar-se da falha técnica. Deviam era desculpar-se por a falha técnica ter sido resolvida tão prontamente!

 
At 12/14/2004 6:41 da tarde, Blogger D'Arcy said...

Essas 'falhas técnicas' são uma absoluta delícia. O pior é o que vem a seguir: é que quando o som volta, os comentadores sentem-se na obrigação de nos compensar pelo tempo em que estivemos infelizmente privados da sua sabedoria... e então massacram-nos os ouvidos ainda mais violentamente.

 

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