segunda-feira, maio 29, 2017

Triplete

Ao conquistarmos a nossa vigésima sexta Taça de Portugal fechámos da melhor forma possível uma época quase perfeita (só faltou a Taça da Liga para o pleno). Foi também a conquista de um triplete 'à antiga' (Supertaça, Taça e Campeonato), algo que não era conseguido há muitos anos - em 2014 tínhamos conquistado as duas taças e o campeonato, ficando a faltar-nos a Supertaça.


Foi um jogo algo diferente dos outros que disputámos contra o Vitória esta época, mas que em comum teve a nossa incontestável superioridade. Durante a primeira parte o Vitória ainda manteve o jogo equilibrado, tapando de forma mais eficaz os caminhos pela zona central que tão bem tínhamos explorado no jogo anterior e recorrendo a um futebol musculado que pareceu dar resultados no terreno cada vez mais pesado devido à chuva que caía. Da nossa parte, sofremos também pelo excessivo apagamento do Jonas durante o primeiro tempo, demasiado amarrado na frente - confesso que a uma dada altura cheguei mesmo a ter a dúvida se ele estaria a jogar, porque é muito pouco habitual ver a bola passar-lhe tão poucas vezes pelos pés. A lesão do Fejsa, ocorrida antes do meio da primeira parte, também pareceu afectar um pouco a nossa equipa, já que o Vitória cresceu no jogo após a sua saída. Na segunda parte mudou tudo radicalmente. O Benfica entrou de rompante, o Jonas finalmente apareceu no jogo, e a partir do momento em que a ligação Pizzi-Jonas começa a funcionar os nossos adversários estão em apuros. Foram dois golos de rajada, o primeiro logo aos três minutos, do Jiménez numa recarga a um remate do Jonas (muito boa a forma como conseguiu picar a bola sobre o guarda-redes com ele quase em cima da bola) e cinco minutos depois veio o segundo, num grande cabeceamento do Salvio depois de um cruzamento do Nélson Semedo, a culminar toda uma jogada que começa na nossa área e durante a qual a bola circulou por mais de meia equipa, com dezenas de passes, sem que o adversário a cheirasse. Depois disso o jogo foi um bocado como aqueles dois que fizemos em Guimarães, desperdiçando ocasiões que dariam para construir um resultado bem volumoso. Apesar do nosso terceiro golo estar sempre mais perto de acontecer, foi o Vitória que conseguiu reduzir a doze minutos do final, na sequência de um canto (que tinha resultado de uma grande ocasião de golo, cortada no limite pelo Samaris) e num lance em que me pareceu que o Ederson não ficou isento de culpas. Mas apesar do golo ter lançado alguma incerteza no resultado, no jogo é que não alterou nada. Porque até ao final nem sequer deu para ter alguma preocupação junto da nossa baliza, e pelo contrário, foi o Benfica quem desperdiçou ocasiões flagrantes, pelo Pizzi e pelo Jiménez, de acabar com todas as dúvidas. No final, vitória justíssima e incontestável, mesmo com o o Hugo Miguel a arbitrar (aquela falta que ele inventou ao Samaris no último lance do jogo para dar uma oportunidade ao Vitória para despejar a bola para a área é Hugo Miguel vintage) e o vídeo-árbitro (aquela coisa mágica que vai fazer com que os nossos adversários passem a ganhar sempre) a ajudar.


Acho que a equipa esteve bem num todo, com jogadores como o Nélson Semedo, o Salvio (teria dado muito jeito que este Salvio não tivesse aparecido só a partir do jogo em Vila do Conde) ou o Pizzi a destacarem-se, na minha opinião.


E assim fechamos mais uma época brilhante na qual fomos a força dominadora do futebol em Portugal. Isto apesar de um presidente da Liga lá colocado pelos nossos adversários e sem o nosso apoio, de um presidente dos árbitros lá colocado pelos nossos adversários mais uma vez sem o nosso apoio, ou daqueles dados estatísticos a que em épocas anteriores os nossos supostos rivais na luta pelo título se agarram em desespero de causa, como penáltis a favor, ou expulsões de adversários, ou minutos em superioridade numérica mostrarem que ficámos em desvantagem clara em relação a eles. Mas ainda há quem, ignorando completamente aquilo que é a história fascista do seu clube (e do outro clube por quem se voltaram a apaixonar recentemente) consiga ter o desplante de falar em Liga Salazar. Só desejo que mantenham esta mentalidade pequenina durante as próximas épocas, porque é para o lado que eu durmo melhor. O futebol para mim entra agora de férias (conforme já estou farto de escrever, a equipa da FPF não me interessa absolutamente para nada) e ficarei na expectativa para ver se não perdemos muitos dos nossos jogadores mais importantes. Expectativa, mas não preocupação. É que depois de viver uma época destas tendo perdido o Gaitán e o Renato no final da época passada, é difícil sentir grande preocupação com saídas.

domingo, maio 21, 2017

Brio

Era um jogo sobretudo para cumprir calendário, mas onde tínhamos o objectivo de fazer efectivamente campeões nacionais os elementos do plantel que ainda não o eram e proporcionar aos nossos adeptos do Norte uma oportunidade para festejarem o Tetra em conjunto com a nossa equipa. E foi agradável ver como uma equipa cheia de segundas escolhas se encheu de brio e decidiu que mesmo que o resultado já para pouco contasse, queria evitar a derrota a todo o custo e proporcionar uma festa ainda mais saborosa a esses adeptos.


Foi mesmo uma equipa alternativa aquela que entrou em campo no Bessa. Nem um dos jogadores que alinharam de início frente ao Vitória fez parte do onze titular. Três dos jogadores que ainda não eram campeões alinharam de início: Pedro Pereira, Hermes e Kalaica. O resto da equipa: Júlio César, Lisandro, Eliseu, Samaris, Filipe Augusto, André Horta, Zivkovic e Mitroglou. Um pouco surpreendentemente, foi o Hermes quem alinhou mais à frente na esquerda, com o Eliseu na lateral - esperaria o contrário, dado que o Eliseu tem experiência a jogar mais adiantado. A equipa que alinhou mostrou naturais problemas de entrosamento, em particular na defesa, onde ficávamos frequentemente expostos nas bolas metidas para as suas costas. Foi aliás assim que o Boavista chegou ao primeiro golo. No ataque as coisas também não eram melhores. Mais posse de bola do que o Boavista, mas muita incapacidade para criar perigo - não sei se chegámos sequer a fazer um remate durante toda a primeira parte. Ao intervalo saiu o Hermes, que se tinha mostrado completamente inadaptado à posição onde alinhou, e entrou o Rafa. O Benfica reentrou mais perigoso, mas foi o Boavista quem voltou a marcar, aproveitando um erro precisamente do Rafa. Mas uma bola para as costas da defesa e um remate cruzado para o poste mais distante. Com a troca do Filipe Augusto pelo Jiménez a equipa melhorou consideravelmente, não só pela acção do mexicano mas também com o recuo do André Horta para a posição oito. A diferença no marcador foi reduzida aos setenta e um minutos, num contra-ataque bem conduzido pelo Rafa (o toque do Jiménez, a amortecer a bola para ele no início da jogada é muito bom também) com um passe na altura exacta que deixou o Mitroglou na cara do guarda-redes, e já sabemos que nestas situações o grego raramente perdoa. O Benfica então carregou até final em busca do empate e esteve muito perto de o conseguir naquele que seria um grande golo do Rafa, mas o remate cruzado de trivela passou a centímetros do poste. De assinalar que, apesar de ser visível a vontade de não perder este jogo, sobrepôs-se o espírito de grupo do plantel: mesmo a perder, a última substituição foi mesmo para fazer entrar o Paulo Lopes, que ainda entrou a tempo de duas boas intervenções. A recompensa chegou ao minuto noventa: canto apontado pelo Zivkovic na esquerda do nosso ataque, e o Kalaica subiu mais alto que toda a gente para cabecear ao ângulo da baliza, com a bola a bater nos ferros e depois já para lá da linha. Explosão de alegria com toda a equipa e público a festejar o golo na estreia do nosso jovem central, e uma forma perfeita de fazer a festa.


Apesar da exibição não ter sido brilhante, louve-se a atitude da equipa e a vontade de evitar que a festa do Tetra ficasse manchada por uma derrota. Alguns dos jogadores aproveitaram esta oportunidade que lhes foi concedida, outros nem tanto. O Kalaica, mesmo sem o golo, já seria um dos que eu consideraria que tinha aproveitado. Mas a exibição dele não terá sido grande surpresa para quem já vinha acompanhando os seus jogos na equipa B ou na UEFA Youth League. Em contraste, o muito mais experiente Lisandro fez uma exibição bastante sofrível. Quanto aos outros estreantes, o Pedro Pereira cumpriu os mínimos, mas achei que esteve demasiado retraído. Um lateral do Benfica tem que participar muito mais nas acções ofensivas da equipa, e por diversas vezes vi os colegas fazerem passes para aquela zona à espera que o lateral entrasse, e a bola acabar por não encontrar ninguém. O Hermes não fez nada digno de realce, mas dou-lhe o desconto de estar a jogar numa posição onde provavelmente nunca terá jogado. O André Horta e o Samaris estiveram num bom nível, e o Rafa, pese o erro que deu o segundo golo do Boavista, mexeu bastante com o nosso jogo.


Em condições normais um empate com o Boavista não seria um bom resultado. Mas no cenário particular deste jogo, acaba por ser um resultado satisfatório, particularmente depois de termos anulado uma desvantagem de dois golos. Agora é altura de parar com os festejos e centrar as atenções na final da taça. Uma dobradinha fecharia a época em beleza.

domingo, maio 14, 2017

Tetra

É pouco importante escrever sobre um jogo quando o que mais importa, e aquilo que fica para a história, é a consequência do seu resultado: a conquista de um inédito tetracampeonato que tantas vezes já nos tinha escapado. Um pensamento que não me deixa a cabeça desde que esta conquista se tornou possível é o do quão privilegiados somos. O nosso Benfica tem 113 anos de uma história gloriosa e incomparável neste país, recheada de conquistas e feitos inigualáveis. Milhões de pessoas já passaram pelo nosso clube, já dedicaram todas as suas vidas a sofrer e a apoiá-lo, mas nós temos a sorte o privilégio de cá estarmos para viver este momento.

O Tetra não surge por acaso. É o resultado de um trabalho que começou há dezassete anos, quando foi necessário começar a reconstruir quase do zero toda a estrutura de um clube que tinha sido delapidada, negligenciada e mal gerida durante anos. E a partir do momento em que o nosso clube está organizado, as vitórias passam a ser quase uma consequência inevitável, porque a nossa dimensão é incomparável e nenhum dos nossos adversários mais directos pode sequer sonhar em se lhe comparar. E é isso que lhes dói mais. Porque mesmo que se juntem os dois numa união de facto, a dimensão e força dessa união continua a ser inferior à nossa. Neste momento a sensação (muito confortável, diga-se) que tenho é a de que a organização do futebol profissional do Benfica é o factor determinante nas conquistas do clube, e não estamos dependentes ou reféns de individualidades, sejam elas treinadores ou jogadores. Se de hoje para amanhã trocarmos de treinador, ou vendermos algum jogador importante, no dia seguinte continuarei a sentir a mesma confiança na capacidade para lutarmos por títulos (mas se quiserem assinar um contrato vitalício com o Fejsa, eu apoiarei entusiasticamente a decisão).

Quanto ao jogo do tetra propriamente dito, foi aquilo que todos sonhamos que seja. Resolver cedo, evitar qualquer tipo de preocupações, e depois passar a maior parte do jogo em clima de festa, contribuindo para ela com uma goleada. Apesar do grande respeito que tenho pela equipa do Vitória, a forma como os dominámos completamente esta época nos dois jogos que disputámos em casa deles, quando toda a gente antecipava complicações, dava-me confiança para este jogo. O Vitória foi fiel aos seus princípios de jogo e tentou jogar de igual para igual com o Benfica, voltando a pagar caro o atrevimento. Revelaram-se sobretudo particularmente vulneráveis pelo centro, e contra o Benfica isso é o pior que pode acontecer. A forma como o Benfica entrava pelo centro da defesa e construía ocasiões de golo cedo deixou antever uma goleada. O Cervi abriu as hostilidades logo aos onze minutos, na recarga a um remate do Jonas, e a partir daí foi só ir somando golos e desperdiçando outras tantas ocasiões para o fazer. Quatro minutos depois o segundo apareceu, com o Benfica finalmente a conseguir tirar partido do pontapé longo do Ederson. Num pontapé de baliza conseguiu colocar a bola no Jiménez, e o mexicano acabou por conseguir a dois tempos ultrapassar o guarda-redes e colocar a bola na baliza, a meias com um defesa. Deu para alguma irritação quando o Jonas, por duas vezes, entrou pelo meio e na cara do guarda-redes falhou dois golos cantados, parecendo que estava com vontade de recuperar o título de 'pior avançado do mundo' que em tempos teve. Mas depois combinou com o Pizzi (ainda e sempre pelo centro) para que este em frente ao guarda-redes não perdoasse e desse ainda mais tranquilidade. E à beira do intervalo, depois de mais uma recuperação de bola do Fejsa, o Jonas levou toda a gente para o descanso a cantar 'E o Benfica é campeão' ao fazer um chapéu perfeito ao guarda-redes para o quarto golo.

A segunda parte, apesar de ser jogada em ambiente de festa, foi de domínio completo do Benfica, de tal forma que foram construídas ocasiões flagrantes suficientes para que, somando-as à desperdiçadas na primeira parte, o resultado final pudesse ter sido o dobro daquele que se registou. Assim de repente lembro-me de um remate do Jiménez ao poste, de um chapéu do Pizzi salvo sobre a linha ou de uma defesa incrível do guarda-redes a mais um remate do Jonas que parecia ter o selo de golo. Isto para não falar em diversas outras ocasiões em que o Benfica conseguia sair rápido para o ataque, entrava pelas alas e colocava três ou quatro homens em posição perigosa, para depois o último passe sair um pouco torto ou ser interceptado no limite por um defesa. Somámos apenas mais um golo ao resultado, um penálti marcado pelo Jonas depois do Cervi ter sido derrubado na área, e parece-me que uma vitória por cinco golos sem resposta acompanhada de uma tamanha demonstração de superioridade face à equipa em melhor forma do campeonato, que seguia com sete vitórias consecutivas, é uma forma perfeita de selar um conquista tão histórica para o nosso clube.

Não houve quem jogasse mal hoje, todos os jogadores estão de parabéns e podia elogiá-los um por um. Escolho mencionar três ou quatro, mas podia escolher outros quaisquer. Um é o Fejsa, simplesmente imperial. O primeiro e quarto golos resultam directamente de recuperações de bola dele, no caso do primeiro à entrada da área adversária. Esteve em todo lado, dobrou toda a gente e dominou por completo o meio campo, em boa companhia do Pizzi, que mais uma vez pareceu ter encontrado mais uma réstia de energia para encher o campo, isto quando é o jogador do plantel com mais minutos nas pernas. Confesso que fiquei com pena que o Fejsa não tivesse sido chamado a converter o penálti, porque merecia marcar um golo não só neste jogo, mas no campeonato.  Em face de tudo o que tenho escrito sobre o Salvio nestes últimos meses, é merecido que o destaque hoje. Não tenho dúvidas nenhumas em afirmar que o Salvio fez hoje o melhor jogo da época. Foi absolutamente diabólico e finalmente voltámos a ver o Salvio que conhecemos. Não sei se o banco lhe fez bem e a assistência em Vila do Conde lhe restauraram a confiança, o que interessa é que jogue sempre assim. Uma última menção para o Cervi. Encanta-me. A capacidade técnica aliada ao espírito lutador que tem, não dando uma bola por perdida, é algo raro de se encontrar. Deverá tornar-se uma das grandes figuras da equipa nas épocas que se seguem.

Somos Tetracampeões, vamos festejar esta conquista inédita e depois começar a preparar o próximo jogo e a final da taça, porque a época ainda não terminou e a nossa sede de conquistas não desapareceu. A ambição de fazer sempre mais e melhor é o que nos move.

segunda-feira, maio 08, 2017

Atitude

Mais um dificílimo obstáculo ultrapassado e um enorme passo dado no caminho que nos separa de um possível e histórico tetracampeonato. O jogo antevia-se complicado, mas o Benfica encarou-o com atitude de campeão e vontade de dar uma enorme alegria ao mar vermelho que inundou as bancadas em Vila do Conde. No final acabámos felizes, sobretudo porque trabalhámos e quisemos muito sê-lo.


Duas alterações no onze titular, que consoante o ponto de vista podem ou não ser consideradas surpresas. Rafa e Jiménez no onze, por troca com o Salvio e o Mitroglou. Se considerarmos o que tem sido o rendimento mais recente dos dois jogadores que saíram, as alterações nada têm de surpreendente. O Salvio há várias semanas que tem sido consistentemente um dos jogadores em pior forma na nossa equipa, e o Mitroglou também tem estado apagado nos últimos jogos, provavelmente por estar a jogar com dores e eventualmente o facto de ter sido pai recentemente também poderá ter alguma influência. Por outro lado, a aparente relutância que o nosso treinador tem revelado em fazer mexidas na equipa titular nos últimos jogos poderá ter feito com que estas alterações tenham surpreendido algumas pessoas - confesso que a mim surpreenderam mesmo, mas pela positiva e fiquei bastante agradado assim que ouvi a constituição da equipa. Nada contra o Salvio ou o Mitroglou, apenas gosto de ficar com a sensação de que joga quem está em melhor forma. O Rio Ave tem sido elogiado pelo futebol que pratica, e verdade seja dita que não abdicou da sua forma habitual de jogar só por estar a defrontar o líder. Mostrou boa organização defensiva, e acima de tudo vontade de jogar futebol, privilegiando a posse de bola e tentando quase sempre sair a jogar, evitando o chutão para a frente. Mas do outro lado estava o Benfica, e uma coisa é jogar assim contra a grande maioria das equipas da nossa liga, e outra contra as equipas mais fortes. Quer isto dizer que a posse de bola do Rio Ave foi bastante estéril, já que o Benfica conseguia tapar quase todos os caminhos para a frente e pressionava logo a saída de bola ao adversário. Por isso mesmo, apesar da posse de bola ser muito repartida entre as duas equipas - e isto é um elogio que se pode fazer ao Rio Ave, porque não são muitas as equipas que conseguem repartir a posse de bola num jogo connosco - o jogo disputava-se quase sempre dentro do meio campo do Rio Ave. O Benfica mostrou também uma boa dinâmica no ataque, onde o Rafa derivava frequentemente para o centro e deixava a ala aberta para o Nélson Semedo, e do outro lado o Cervi mostrava uma energia inesgotável. O Jiménez é um avançado muito mais móvel do que o Mitroglou, e as suas movimentações faziam com que diversas vezes olhássemos para a área e lá estivesse não o ponta-de-lança, mas sim o Jonas e o Rafa. Todos os jogadores do ataque se iam mostrando, e o Benfica foi naturalmente muito mais rematador - contra uma das equipas do campeonato que menos remates permite ao adversário. Mas num jogo em que as duas equipas se empenharam ao máximo, o nulo acabou mesmo por persistir até ao intervalo, embora fosse o Benfica quem dava sinais claros de poder chegar primeiro ao golo.


E esses sinais foram reforçados na reentrada para o segundo tempo. Nessa altura o Benfica submeteu o Rio Ave a uma forte pressão e procurou chegar cedo ao golo que nos colocaria numa posição bastante confortável no jogo. O Rio Ave foi lentamente sendo obrigado a recuar a linha de pressão cada vez mais, mas o golo do Benfica não chegava e estávamos sempre expostos a algum contra-ataque que pudesse explorar o nosso cada vez maior adiantamento no terreno - apesar do Benfica estar cada vez mais por cima no jogo, o Rio Ave conseguia agora ser mais perigoso quando saía para o contra-ataque. Ainda apanhámos um susto dessa forma, mas o Héldon foi algo egoísta, não passou a bola no momento certo, e depois acabou por fazer um remate cruzado que saiu ao lado da baliza. A vinte minutos do final, uma substituição que acabou por se revelar decisiva, que foi a troca do Rafa pelo Salvio. Porque cinco minutos depois da sua entrada, e pouco depois de mais uma jogada de algum perigo do Rio Ave (remate do Tarantini que saiu muito perto do poste, depois de um passe atrasado para a entrada da área) o Benfica desenhou um contra-ataque exemplar após um canto a beneficiar o Rio Ave. Assim que a bola foi recuperada, saímos a jogar desde a nossa área e a bola só parou no fundo da baliza adversária. Corte de cabeça do Lindelöf, bola no Cervi à saída da área, Cervi para o Jonas, toque do Jonas para a corrida do Salvio pela esquerda e desde a linha do meio campo até à entrada da área adversária, passe com conta, peso e medida para o Jiménez (corre tudo tão melhor quando nos lembramos que jogamos numa equipa e passamos a bola na altura certa, não é Salvio?) que entretanto se tinha desmarcado pelo centro, e o mexicano com tempo e calma suficiente deu um toque para controlar a bola, e outro para rematar rasteiro e colocado junto ao poste para o fundo da baliza, quando o guarda-redes saiu ao seu encontro. Nada mau para uma equipa que não tem processos. Num jogo destes, tal como o aconteceu o ano passado neste campo, um golo é quase sempre decisivo. Por isso nos minutos finais o Benfica optou por fechar os caminhos para a sua baliza, trocando o Jonas pelo Samaris, e fê-lo com eficácia, já que o Rio Ave não conseguiu pressionar-nos de forma consistente. Mas não nos livrámos no entanto de um enorme susto, quando um ressalto de bola nas costas do Lindelöf após um corte do Luisão deixou a bola solta no interior da área, e na sequência disso levámos com uma bola no poste e no ressalto, em muito boa posição, o Héldon rematou por cima. Faltavam três minutos para os noventa, e nesse lance tivemos estrelinha. Mas no cômputo geral, creio que a vitória do Benfica é inteiramente justa e inquestionável.


Grande atitude de toda a equipa em geral, a atitude que se exigia para conseguir ganhar um jogo desta dificuldade. O Jiménez foi o herói do jogo, mas não houve um jogador que se possa dizer que esteve mal. Já começo a ter saudades antecipadas do Nélson Semedo, porque tenho dúvidas que tenhamos a felicidade de o ver por cá mais uma época. O Fejsa foi o colosso do costume à frente da defesa, os centrias fizeram um jogo muito sólido, e o Cervi mostrou aquela garra tão pouco habitual nos jogadores tecnicistas que actuam na sua posição. Já o reclamava antes e continuo a afirmar que para mim seria sempre o mais indiscutível dos extremos do Benfica.

À entrada para esta jornada sabíamos que precisávamos de conquistar sete pontos nos três jogos que faltavam para garantir o título. No final da mesma esse número reduziu-se para dois pontos nos dois jogos que faltam. Falta muito pouco, é certo, mas ainda falta alguma coisa. Não é tempo de festejos ou triunfalismos descabidos, porque nada está ganho ainda. Nenhuma equipa gosta de fazer de figurante na festa do adversário, e para a semana vamos defrontar a equipa em melhor forma do campeonato, que certamente não estará nada para aí virada. O Vitória é uma excelente equipa, que não virá disposta a participar em festa alguma, até porque quererá marcar posição para a final da taça que se avizinha. Mostrámos uma atitude e empenho exemplares durante trinta e duas jornadas. Falta mantê-la por mais duas para que seja possível celebrar no final.

domingo, abril 30, 2017

Alívio

Quando o árbitro apitou para assinalar o final da partida, antes de sentir alegria, ou até mesmo satisfação, a sensação mais imediata foi mesmo a de alívio. Por ver finalmente terminar com uma vitória um jogo tremendamente difícil no qual tivemos uma exibição longe do melhor que esta equipa sabe e pode fazer, com um período de apagão completo absolutamente inaceitável.


O regresso do Jonas ao onze significou a saída do Rafa. Uma alteração em relação ao jogos mais recentes, já que com o Jonas em campo até tinha sido o Rafa a escolha para o lado esquerdo, mas desta vez foi o Cervi a jogar. O jogo foi complicado desde o início, muito por nossa culpa, mas também por culpa do Estoril. Uma equipa muito bem organizada, que esteve longe de estacionar o autocarro - duas linhas quase sempre bastante juntas, mas subidas no terreno, a procurar pressionar logo à entrada do seu meio campo, e com jogadores que me pareceram muito fortes fisicamente, e que sistematicamente chegavam um pouco antes às bolas e ganhavam quase tudo o que eram lances divididos. A nossa culpa foi muito pela falta de velocidade e acutilância no nosso jogo. Grandes dificuldades para fazer a bola circular com a rapidez necessária para desposicionar a equipa do Estoril, demasiadas lateralizações, e incapacidade para conseguir colocar a bola entre as linhas do Estoril. Apesar de mais posse de bola, praticamente zero ocasiões de perigo, com o primeiro remate digno desse nome a surgir perto da meia hora de jogo. E esse remate deu golo, porque foi do Jonas na conversão de um penálti a castigar uma falta indiscutível do Licá sobre o Nélson Semedo - um dos poucos jogadores que ia de vez em quando tentando dar um safanão no jogo, e com o Salvio a realizar mais uma exibição na linha daquilo que nos tem vindo a habituar, fazia o trabalho de dois pelo lado direito. Depois deste golo o jogo não mudou muito, mas talvez por o Estoril ter arriscado um pouco mais o Benfica ainda conseguiu algumas situações de contra-ataque em que apanhou o adversário desprevenido. E ainda sem criar ocasiões em catadupa, poderia facilmente ter chegado ao intervalo com uma vantagem bem mais confortável, porque desperdiçámos um par de ocasiões soberanas para marcar. Na primeira o Cervi, servido de cabeça pelo Mitroglou, atirou de pé direito para a bancada quando estava junto ao poste e se calhar a um ou dois metros da baliza. Na segunda, mesmo a acabar a primeira parte, o passe do Nélson Semedo deixou o Salvio dentro da área completamente à vontade para marcar, mas por alguma razão que me escapa o argentino resolveu puxar a bola para o pior pé (o esquerdo) e depois fez um remate rasteiro para fora.


A exibição não tinha sido brilhante na primeira parte, mas o Benfica tinha sido claramente a melhor equipa em campo e merecia a vantagem. Por isso mesmo nada poderia fazer prever aquilo que se passou durante o primeiro quarto de hora da segunda parte. Acho que só posso descrevê-lo como descontrolo total da nossa equipa. O Estoril voltou do balneário a jogar de forma bastante agressiva e efectivamente massacrou-nos durante esse período. Vários cantos, remates perigosos (acertaram duas vezes nos ferros da baliza), o Ederson a ter que se aplicar, inclusivamente segurando uma bola quando o adversário lhe apareceu isolado à frente, e a dúvida já nem era se o Estoril chegaria ao empate, mas sim quando é que o faria. Da parte do Benfica, uma incapacidade total para pelo menos acalmar o jogo, manter a posse da bola durante algum tempo para permitir que as ideias se organizassem naquelas cabeças. Incapacidade também de reacção ou leitura do jogo da parte do nosso banco. Era por demais evidente a enorme superioridade do Estoril no centro do terreno. Entre a nossa linha de defesa e o meio campo havia um vazio enorme - porque perante a inferioridade no centro, o Fejsa frequentemente adiantava-se para tentar equilibrar a luta, e entretanto um dos avançados do Estoril (normalmente o Carlinhos, mas também o Kléber) recuavam para o espaço vazio e recebiam quase sempre a bola à vontade. Exigia-se a entrada de mais um médio, mas por algum motivo o nosso treinador não partilhava dessa opinião. E o golo do Estoril apareceu mesmo, e nessa altura julgo que não deve ter surpreendido a enorme maioria dos quase sessenta mil espectadores que encheram a Luz neste final de tarde. O golo nasce numa incursão do lateral esquerdo do Estoril, que flecte para o centro, deixa o Pizzi para trás com facilidade, coloca a bola para a desmarcação do Kléber, e este ganha em velocidade ao Lindelöf e aproveita ainda o escorregão do Ederson quando tentou sair para lhe meter a bola entre as pernas. Empate no marcador e, face ao que se tinha visto desde o início da segunda parte, perspectivas nada animadoras. Felizmente surgiu o génio do Jonas a resolver, apenas seis minutos depois. Na sequência de uma boa troca de bola entre ele, o Cervi e o Grimaldo, um potente e colocadíssimo remate de fora da área não deu qualquer possibilidade de defesa ao Moreira. O golo acalmou um pouco a nossa equipa e quebrou também o ímpeto ao Estoril. Mas o jogo só passou a estar mais controlado quando finalmente entrou o médio adicional que o jogo pedia há vários minutos. Depois da entrada do Filipe Augusto (preparava-se para entrar quando o Estoril marcou, e então acabou por entrar o Carrillo) o Benfica até conseguiu criar um par de ocasiões para descansar os adeptos, mas na primeira o Jiménez, estorvado por um defesa, foi incapaz de ao segundo poste desviar para a baliza com força suficiente o grande cruzamento do Nélson Semedo, acabando por fazer um passe para as mãos do Moreira, e na segunda o Grimaldo rematou para a bancada depois de entrar na área completamente solto pela esquerda. Nesta fase o Estoril já não conseguia criar perigo, e recorria apenas aos livres que os seus jogadores não se cansavam de tentar cavar para despejar bolas para a área. Sem sucesso.


O Jonas é obviamente o homem do jogo, e mais explicações são desnecessárias. Para além dele, consigo apenas destacar o Nélson Semedo - não é por acaso que esteve envolvido na maior parte dos lances de perigo que o Benfica conseguiu criar no jogo. Uma menção também para a atitude competitiva do Cervi. De resto, acho que mais ninguém conseguiu escapar à mediania ou até mesmo à mediocridade. O Lindelöf, depois do grande jogo da última jornada, revelou hoje enormes dificuldades para travar o Kléber. O Mitroglou foi uma sombra em campo. Até o Grimaldo não esteve bem, com algumas perdas de bola e passes errados que não são nada habituais. Sobreo Salvio, já nem vale a pena dizer nada.

Uma vez mais o verdadeiramente importante, que são os três pontos, foi conseguido. Temos agora menos uma jornada a separar-nos do nosso objectivo, e em vez de dez faltam agora conquistar sete pontos. Mas os próximos dois jogos serão contra duas das equipas que melhor futebol estão a praticar neste momento no nosso campeonato, orientadas por dois excelentes treinadores. Vai ser preciso estarmos ao nosso melhor - portanto, bastante melhor do que aquilo que vimos hoje - para não termos dissabores nesses jogos. A margem para erro é ínfima, e não podemos facilitar.

segunda-feira, abril 24, 2017

Estofo

O futebol tem coisas assim. O Benfica, essa equipa em queda acentuada, forte contra os fracos, fraco contra os fortes, vai a casa da equipa que joga 'o melhor futebol do campeonato' (não é surpresa, eles jogam sempre o melhor futebol do campeonato há umas três décadas consecutivas, no mínimo), que possui a 'melhor dupla de avançados do futebol português', orientados por aquele que desde há dois anos a esta parte passou a ser o melhor treinador português, e quase que é possível ouvir o ruído dos milhares de mãos a esfregarem-se de satisfação perante a quase certeza (mais uma vez) de que é desta que caímos do primeiro lugar. Começamos o jogo a perder por causa de um erro grosseiro do nosso guarda-redes, temos motivos de queixa de um período de desorientação completa por parte da arbitragem, e mesmo assim a nossa equipa nunca perdeu o rumo, mostrou sempre uma frieza admirável, jogou em Alvalade como se estivesse a jogar noutro campo qualquer (OK, também seria difícil sentir-se intimidado quando estava a jogar num campo rodeado de panos com fábulas como 22 títulos de campeão, maior potência desportiva nacional e outras mentiras que eles gostam de repetir na esperança que alguém os leve a sério, e onde a equipa da casa é apresentada de óculos escuros, numa espécie de mau espectáculo burlesco) e foi buscar o resultado que lhe permite manter-se isolada no topo da classificação. A isto chama-se estofo de (tri)campeão.


Não foi possível ao nosso treinador apresentar o mesmo onze inicial pela terceira jornada consecutiva, uma vez que o Jonas não recuperou a tempo e nem no banco se sentou. Para o onze entrou o Cervi, que durante o jogo foi alternando de posição e de funções com o Rafa, variando ambos entre extremo e segundo avançado. Era difícil que o jogo tivesse começado de maneira pior. O Sporting entrou a pressionar, andou perto da nossa área logo nos instantes iniciais e viu um par de tentativas de remate serem bloqueadas pelos nossos defesas, mas aos quatro minutos uma asneira do Ederson, que recepcionou mal um bola com os pés e depois quando a tentou chutar já só encontrou o pé do Bas Dost, resultou num penálti evidente contra nós. Verifiquei também que não são apenas os adeptos, mas também os próprios jogadores do Sporting que desconhecem as regras do jogo, já que por algum motivo resolveram pressionar o árbitro para que expulsasse o Ederson, o que não faria qualquer sentido. Com o penálti convertido pelo Adrien, tudo indicaria que o cenário que os mais fervorosos antibenfiquistas tinham andado a imaginar e a prometer estaria montado. Nada de mais errado. O Benfica não acusou o toque e partiu para um exibição personalizada e tranquila, procurando chegar ao golo de forma sóbria. O jogo foi muito táctico, disputado na zona do meio campo e a bola andou quase sempre afastada de ambas as balizas, mas o Benfica parecia conseguir ganhar alguma superioridade no centro e manter mais posse de bola, enquanto mantinha as tentativas do Sporting de sair rapidamente para o ataque controladas. Ocasiões de golo a seguir ao penálti foram quase inexistentes - o Benfica ainda conseguiu um par de cruzamentos promissores, mas o Coates apareceu sempre bem colocado a evitar que a bola chegasse ao Mitroglou. A única situação de maior perigo surgiu já perto do intervalo, num livre directo marcado pelo Grimaldo ao qual o Rui Patrício correspondeu com uma boa defesa. Foi também nos últimos minutos da primeira parte que a equipa de arbitragem teve um período extremamente infeliz, durante o qual conseguiu, em série, ajuizar três lances dentro da área do Sporting sempre em desfavor do Benfica. Se no terceiro deles, entre o William e o Rafa, ainda consigo dar o benefício da dúvida, nos outros dois já é mais difícil. No primeiro, do Schelotto sobre o Grimaldo, a posição do árbitro permitiu-lhe ver perfeitamente o que aconteceu. E o segundo, do Bruno César sobre o Lindelöf, foi de tal forma evidente que pelo menos o auxiliar daquele lado tinha a obrigação de ter visto e assinalado, porque o gorducho chegou ao Lindelöf já bem tarde e quando o nosso jogador já estava completamente no ar, não tendo sequer saltado para disputar a bola. Foi um empurrão, puro e simples.


Na entrada para a segunda parte, o Sporting voltou a estar mais perigoso. O perigo vinha sobretudo das incursões do Gelson pela esquerda da nossa defesa, onde o Grimaldo revelava dificuldades para o travar, e subsequentes cruzamentos para o Bas Dost. Foi assim que o Sporting construiu uma grande ocasião para ampliar a vantagem, mas o holandês, que se apanhou completamente sozinho em frente ao Ederson após receber o passe do Gelson, acertou mal na bola e o remate saiu rasteiro e enrolado ao lado da baliza. A primeira alteração no Benfica teve bons resultados tácticos. O Jiménez entrou para o lugar do Rafa e foi dar mais companhia ao Mitroglou na frente, ocupando com maior frequência o espaço à frente da linha de defesa do Sporting. Isto obrigou o William Carvalho a ter que se preocupar mais com a presença de um jogador nessa zona, e a ficar mais fixo junto à linha defensiva, o que teve como consequência vermos o Adrien frequentemente muito mais só no meio campo perante os nossos jogadores. E por isso mesmo voltámos a ganhar superioridade nessa zona, o Pizzi beneficiou bastante da liberdade adicional e estabilizamos novamente o nosso jogo, acabando com os sucessivos contragolpes do Sporting da fase inicial da segunda parte. Mas as ocasiões de golo ainda continuavam a ser muito escassas, e apenas por uma vez o Mitroglou conseguiu libertar-se e rematar à baliza, mas fê-lo de forma fraca e sem causar grandes problemas ao Patrício. Quando os jogos estão assim, muitas vezes acabam por ser as bolas paradas a decidir, e este jogo não foi excepção. O Benfica beneficiou de um livre mais ou menos na mesma posição daquele que no final da primeira parte tinha proporcionado ao Grimaldo a ocasião para marcar, ou seja, perto da área e descaído para o lado esquerdo. O Grimaldo e o Lindelöf estavam perto da bola, mas surpreendentemente foi o sueco quem arrancou um pontapé fenomenal que não deu qualquer possibilidade de defesa ao Patrício. Já no livre da primeira parte ele estava perto da bola, mas não estava mesmo à espera que ele o marcasse. É uma qualidade que lhe desconhecia. A partir daqui o jogo teve pouca história, porque continuou na mesma toada de equilíbrio, quase sem ocasiões ou remates a qualquer uma das balizas. O empate era um resultado que se adequava perfeitamente aos nossos objectivos, e sem forçar absolutamente nada controlámos o resultado até final.


Na minha opinião os destaques maiores na equipa do Benfica vão para a dupla de centrais, o Fejsa e o Pizzi. Seria fácil destacar o Lindelöf simplesmente pelo golo, mas independentemente disso ele fez um jogo sem mácula, sempre bem posicionado, com vários cortes e recuperações de bola decisivos, e ao lado do Luisão anularam perfeitamente 'a melhor dupla de avançados em Portugal'. Fora de brincadeiras, apanharam pela frente o melhor marcador do campeonato, com larga vantagem, e conseguiram evitar que ele nos criasse muitos problemas, o que é de realçar. O Fejsa foi a presença habitual importante no meio campo defensivo, e um dos jogadores que mais bolas recuperou. O Pizzi foi um jogador renovado neste jogo, longe daquele jogador que nas últimas semanas parecia estar no limite da sua condição física. Foi o motor do nosso meio campo e travou uma luta enorme com aquele que foi um dos melhores jogadores do adversário, o Adrien. Grande, grande exibição. No geral, toda a equipa teve uma atitude muito boa, que é o mínimo que se pode exigir aos nossos jogadores num jogo destes.


Volto a repetir o que já escrevi após outros jogos: foi apenas mais um pequeno passo na direcção certa, rumo ao objectivo que estabelecemos no início da época. O tetracampeonato está agora mais perto, mas ao mesmo tempo continua ainda muito longe. De nada servirá a manutenção da liderança após o último jogo 'grande' (já agora, com este resultado o Benfica assegurou a vitória do chamado 'campeonato dos grandes', não tendo perdido um único jogo, o que não é nada mau para uma equipa dita 'fraca contra os fortes') se depois a perdermos em casa contra o Estoril, porque esse jogo tem os mesmos três pontos em disputa. Estoril que, como já mostrou no jogo para a taça, está uma equipa transfigurada desde que o Pedro Emanuel tomou conta dela. Todo o cuidado é pouco, e vamos precisar de manter a concentração máxima para os jogos que faltam - até porque o desespero para os outros lados continua a aumentar e consequentemente também o tom dos ataques desvairados vai aumentar.


P.S.- Hoje em dia é muito fácil escolher viver dentro de uma espécie de bolha, na qual apenas se tem acesso às opiniões com as quais concordamos ou em que queremos acreditar, e sem qualquer contacto com o contraditório. Ao fim de algum tempo as pessoas que vivem assim acabam por convencer-se que essa realidade virtual alternativa corresponde à realidade. É fácil identificar adeptos do Sporting nessa condição. Normalmente congregam-se em redor de sítios como uma Tasca do Cherba ou um Mister do Café, entre outros do mesmo quilate, que não passam de verdadeiros asilos de lunáticos virtuais, onde partilham as suas visões retorcidas da realidade. Onde o presidente do clube deles é um paladino da luta pela verdade no futebol e pela pacificação do mesmo. Onde o Benfica só ganha jogos porque os árbitros estão comprados por vouchers, ou porque as equipas adversárias facilitam, ou então porque qualquer jogador que tenha alguma vez passado de táxi em frente ao Estádio da Luz, quando defronta o Benfica, propositadamente prejudica a sua carreira e a sua própria equipa marcando autogolos ou cometendo penáltis intencionalmente (isto, já agora, é válido para todas as modalidades, em todos os escalões etários, masculinos ou femininos). Por outro lado, o Sporting é uma potência mundial que só não é campeão em Portugal por causa das manobras do Benfica e não é campeão europeu por causa da manobras da Doyen e da Gazprom. Se não fossem os 'factores externos', como não se têm cansado de repetir, estariam a lutar pelo título, e vão mostrar isso mesmo neste jogo humilhando o Benfica. Depois vão para estes jogos convencidos que são favas contadas, e a única dúvida naquelas cabeças é por quantos é que o Sporting vai golear e quantos golos vai marcar o Bas Dost. Começa o jogo e em vez de aparecer uma equipa que 'não joga nada' e que sem ajudas estaria provavelmente a lutar para não descer, apanham com um Benfica que apesar de um enorme contratempo logo a começar não está minimamente impressionado ou afectado com o 'poderio incomparável' da equipa deles, joga olhos nos olhos, e todos os erros de arbitragem que se podem apontar (que é a desculpa a que normalmente nestas situações se agarram sempre de forma desesperada, quais náufragos numa tempestade agarrados a uma tábua) foram em prejuízo clamoroso do Benfica. Isso deveria abalar seriamente algumas convicções. A resposta é a que se esperaria de um cão raivoso que pretende desviar as atenções o mais rapidamente e da forma mais rafeira possível. É ler os devaneios escritos hoje pela criatura que preside o Sporting e pelo homúnculo que lambe o chão que ele pisa para ver o melhor exemplo disso. E sem dúvida que a turba que os segue de forma quase religiosa continuará a aplaudir freneticamente.

sábado, abril 15, 2017

Confortável

Vitória confortável contra um adversário teoricamente complicado, mas que acabou por ser uma desilusão. O Marítimo apresentou-se na Luz apostado apenas em jogar um futebol negativo e a partir do momento em que ficou em desvantagem deixou de ter objectivo no jogo. A nota artística não foi a melhor, mas perante um adversário a jogar desta forma era difícil fazer muito melhor, e não fosse o nosso desacerto na conclusão de diversas jogadas o jogo poderia ter acabado com um resultado bem mais desnivelado.


Entrámos em campo com exactamente o mesmo onze que tinha defrontado o Moreirense. E ficou evidente, desde o apito inicial, ao que o Marítimo vinha. Confesso que fiquei um pouco desiludido, porque esperava mais de uma equipa que tem sido uma das revelações da prova desde a mudança de treinador. Logo no primeiro pontapé de baliza do jogo, o guarda-redes começou a queimar tempo. Toda a equipa do Marítimo acantonou-se em frente à sua área, com o trinco a recuar para o meio dos centrais para formar um trio, e montando duas linhas de defesa muito juntas, tentando deixar o mínimo de espaço possível para o Benfica jogar. Saídas para o contra-ataque eram inexistentes. Um dos seus jogadores, o Raúl Silva, parecia estar em campo com algum tipo de missão ou encomenda em relação ao Jonas. Passou o tempo todo a provocá-lo e a tentar armar algum tipo de confusão. A única situação de algum perigo que o Marítimo criou surgiu num disparate do Ederson, que tentou fintar um adversário e quase que perdeu a bola. Quanto ao Benfica, revelou dificuldades para ultrapassar a estratégia do Marítimo. O jogo pelas alas não estava a funcionar, pelo que começámos progressivamente a insistir mais pelo meio. Mas na fase inicial do jogo até o Jonas parecia não estar em dia de muito acerto. Por quatro vezes conseguimos fazer a bola entrar entre as duas linhas do Marítimo e chegar aos pés dele, em posição frontal, mas os remates nunca saíram com a direcção ou a força desejadas - iam quase sempre à figura do guarda-redes. Depois de muito insistir, o Benfica acabou por marcar dois golos de rajada, a partir do trigésimo quarto minuto. O primeiro surgiu após uma boa iniciativa do Rafa pela esquerda, que depois cruzou rasteiro para a boca da baliza. O guarda-redes não chegou à bola, o Mitroglou estava preparado para empurrar, mas um defesa antecipou-se de carrinho e marcou na própria baliza (já antes o Marítimo estivera perto de fazer um autogolo, valendo-lhe o tempo de reacção do seu guarda-redes, inversamente proporcional à velocidade com que repunha a bola em jogo). Dois minutos depois, nova investida do Rafa pela esquerda, passe para o Pizzi à entrada da área, e novo passe para o Jonas desta vez rematar colocadíssimo, fazendo a bola entrar literalmente pelo buraco da agulha, juntinho à base do poste. E só não surgiu um terceiro golo de rajada porque o Mitroglou conseguiu falhar um golo cantado, depois do Nélson Semedo lhe colocar a bola à frente dos pés em posição frontal. Mas o Marítimo não se livrou de ir para o intervalo com três golos de desvantagem: na última jogada da primeira parte, canto marcado pelo Grimaldo na esquerda, o Luisão ganhou nas alturas, e o Jonas surgiu ao segundo poste para, à segunda tentativa, fazer o golo.


Com o jogo praticamente resolvido ao intervalo era expectável que a segunda parte pudesse ser pouco interessante, e isso verificou-se. O futebol jogado não foi da melhor qualidade, até porque o Benfica não tinha qualquer interesse em estar a aumentar o ritmo. Conseguimos controlar o adversário e gerir o jogo na perfeição, sem qualquer tipo de sobressalto - a única ocasião de algum perigo que o Marítimo criou foi mesmo a acabar o jogo, mas nem sequer conseguiu fazer um remate à baliza nessa ocasião, já que o seu jogador pareceu embrulhar-se com a bola dentro da pequena área. O Marítimo lá tentou sair um pouco lá de trás e, naturalmente, começou a abrir autênticas avenidas para serem exploradas pelos nossos jogadores. Que mesmo sem forçar, e quase em ritmo de passeio, construiram situações mais do que suficientes para pelo menos conseguirmos igualar o resultado que tínhamos conseguido frente a esta mesma equipa no jogo para a Taça. Só mesmo muita falta de inspiração na hora de finalizar ou definir as jogadas é que explicam que não tenhamos conseguido marcar um único golo durante a segunda parte. Que o Salvio faça disparates, nesta fase já quase que dou isso como um dado adquirido. Mas hoje até o Mitroglou estava em dia não, e durante o jogo desperdiçou ocasiões que não é nada habitual vê-lo falhar. O jogo deu para fazermos uma gestão tranquila do esforço, poupar o Jonas (saiu tocado; esperemos que não seja nada de grave) e o Pizzi (que evitou o amarelo, embora se considerarmos que o árbitro cometeu a proeza de conseguir não mostrar um único amarelo aos jogadores do Marítimo, apesar das sucessivas faltas que cometeram, seria demasiado 'azar' o Pizzi ser admoestado) e acabar o jogo em clima de festa, com as mais de 57.000 pessoas nas bancadas em comunhão com a equipa.


O Jonas merece o destaque que os dois golos que marcou lhe conferem, embora pudesse ter feito ainda mais. Achei também que ele me pareceu ficar demasiado nervoso com as provocações constantes do Raúl Silva. Eu sei que uma pessoa não é de ferro, mas ele é um jogador demasiado experiente para se deixar afectar por coisas destas - esteve bem o Luisão quando num determinado momento o foi afastar e pedir calma. O Rafa desta vez fez um jogo bastante melhor, esteve envolvido nos dois primeiros golos e no geral foi um dos jogadores mais activos e perigosos do nosso ataque - brilhante aquele contra-ataque que conduziu sozinho de uma área à outra, para depois deixar o Salvio sozinho na cara do guarda-redes (não deu golo, porque era o Salvio). O Lindelöf, Luisão e Fejsa estiveram num bom nível, mas uma das notas mais agradáveis foi mesmo verificar que o Grimaldo já se mostrou a um nível bem mais elevado. Esteva tão activo pelo seu lado que o Nélson Semedo por vezes quase pareceu um lateral contido no apoio ao ataque. Quanto ao menos bom, houve uma feroz concorrência entre o Salvio e o Mitroglou por essa distinção. Como não consigo desempatá-los, levam-na ex aequo.

Foi um bom resultado e um jogo que correu da melhor maneira possível, parecendo não exigir demasiado esforço físico ou psicológico dos nossos jogadores. Com isto garantimos o primeiro lugar por mais uma jornada, e agora faltam apenas cinco. O caminho para o título vai ficando cada vez mais curto.