Tenho muito orgulho no meu clube.
Se calhar, antes do jogo, ficaria razoavelmente satisfeito com a perspectiva de um empate contra o Manchester United. Depois de vistos os noventa minutos esse mesmo empate, apesar de se aceitar, já me sabe a pouco.

A Luz pôs-se linda esta noite para receber a estreia do Benfica na fase de grupos da Champions. Casa cheia e um ambiente fantástico, daqueles que nos fazem sentirmo-nos privilegiados pelo simples facto de podermos estar ali. O Ferguson tinha prometido que para este jogo iria apostar na experiência e cumpriu, apresentando uma equipa bastante diferente daquela que temos visto na Premier League. O meio campo foi onde isto mais se notou, aparecendo jogadores como Carrick, Giggs, Park, Valencia ou Fletcher. Claro que aqueles do costume irão agora argumentar que eles jogaram com as 'reservas', mas se calhar poderiam reparar que sete dos onze jogadores com que o Manchester entrou em campo esta noite estavam no onze que, há quatro meses, entrou em campo para jogar a final da Champions frente ao Barcelona. E as mudanças do Ferguson não se ficaram pelos jogadores, já que a própria táctica mudou, com o Manchester a abandonar o 4-4-2 habitual e a alinhar em 4-5-1, deixando o Rooney sozinho na frente. Da parte do Benfica, a principal alteração foi a entrada do Rúben Amorim para a direita do meio campo, tendo provavelmente como principal objectivo controlar as subidas do Evra pelo seu lado.

O jogo em si pareceu-me ficar marcado por muito respeito (ou receio) de parte a parte. O Manchester já o tinha mostrado na escolha do onze e da táctica, e o Benfica mostrou-o em campo. A nossa equipa arrumou-se em duas linhas de quatro jogadores - o Witsel jogava praticamente ao lado do Javi - encostando a linha do meio campo à da defesa, deixando ao Aimar a tarefa de fazer a ligação com o muito sozinho Cardozo na frente. Isto deixou bastante espaço ao Manchester para fazer posse de bola em zonas mais recuadas, mas não conseguindo converter essa posse de bola em lances de ataque de real perigo, já que raramente conseguiu encontrar maneira de furar as duas linhas do Benfica. Com menos posse de bola, o Benfica tentava aproveitar as recuperações de bola para sair em velocidade para o ataque e explorar todo o espaço que o Manchester deixava atrás, conseguindo assim ser mais rematador. Mas foi bastante evidente que mesmo neste aspecto houve cautelas, porque estas saídas eram quase sempre feitas com grande certeza, raramente fazendo passes de risco. Foi numa saída destas que, na esquerda, o Gaitán inventou um grande passe de trivela que foi encontrar o Cardozo praticamente um para um com o Evans. Depois o paraguaio, com um grande trabalho, matou no peito, ultrapassou o defesa puxando a bola com o pé esquerdo, e de pé direito rematou cruzado para o primeiro golo, após vinte e quatro minutos de jogo. Nada mudou com este golo, mantendo-se o mesmo cariz no jogo: mais posse de bola para o United, e o Benfica coeso na defesa e mais rematador. Mas a três minutos do intervalo 'esquecemo-nos' do Giggs, ele meteu-se no espaço entre as linhas e, à entrada da área, desferiu um remate sem qualquer hipótese de defesa para o Artur. Foi o primeiro remate que o Manchester fez à baliza no jogo, pelo que era já com a sensação de alguma injustiça que fomos para o intervalo.

A segunda parte trouxe um Manchester mais pressionante. Continuavam sem conseguir criar muitos lances de perigo, mas jogavam mais sobre a nossa área e o Benfica agora já raramente conseguia sair para o ataque. Esta melhor fase dos ingleses prolongou-se durante vinte minutos, e culminou com um grande oportunidade de golo, mais uma vez pelo Giggs, que serpenteou entre os nossos defesas e de repente apanhou-se isolado, valendo-nos uma defesa por instinto do Artur, com a ponta do pé. Este susto como que despertou o Benfica, que imediatamente respondeu com uma boa ocasião de golo: o Nolito (tinha entrado para o lugar do Rúben Amorim), após passe do Gaitán, rematou cruzado para uma grande surpresa do dinamarquês Lindegaard. Talvez motivado por aqueles bons primeiros vinte minutos, o Ferguson decidiu fazer entrar o Nani e o Chicharito e mudar para 4-4-2, mas o tiro saiu-lhe pela culatra, porque a verdade é que os jogadores que entraram pouco trouxeram ao jogo e o Manchester caiu bastante, passando o Benfica a ter algum ascendente. Talvez o Benfica, do ponto de vista do adepto, pudesse ter arriscado algo mais nos últimos quinze minutos, quando o Aimar saiu. O Jorge Jesus preferiu a solução mais conservadora de manter o esquema táctico, entrando o Matic e subindo o Witsel, e não temos forma de saber se outra opção teria dado melhor resultado. A verdade é que o Benfica manteve-se melhor no jogo e criou mais duas boas oportunidades para vencer o jogo, pelo Gaitán e pelo Nolito, que contribuíram para aumentar a frustração por vermos uma possibilidade de vencer o Manchester United escapar-nos.

Houve vários jogadores que estiveram num nível bastante alto esta noite, mas acima de todos esteve o Luisão. O nosso capitão esteve simplesmente imperial, dominou a sua zona de acção, meteu o Rooney ao bolso e mais qualquer um que se aventurasse por ali, e dobrou colegas na defesa e até no meio campo com enorme eficácia. Grande jogo do Cardozo na missão de sacrifíco a que foi obrigado. Marcou um grande golo (se fosse tão tosco como gostam de o chamar de certeza que não conseguiria marcar um golo daqueles) e cumpriu a missão de segurar a bola e fazer jogar os colegas do meio campo. Javi García, Maxi Pereira e Gaitán também muito bem.
Volto a dizer que me sinto orgulhoso daquilo que a nossa equipa fez esta noite. Tacticamente esteve quase perfeita, limitando o Manchester United, que tem goleado a torto e a direito esta época, a três remates na primeira parte e dois na segunda. Criou ocasiões suficientes para poder vencer, e se o empate se pode considerar lisonjeiro para alguém, é para os ingleses. Os nossos jogadores bem mereceram o aplauso com que a Luz se despediu deles esta noite.